A celulite é caracterizada por uma distribuição desigual do tecido adiposo subcutâneo, a qual se reflete na superfície da pele dando-lhe aspecto irregular (SMALLS, 2005). É uma alteração estética do relevo cutâneo, a qual se torna com aspecto clínico de acolchoamento, visível somente ao teste de compressão, denominado também de aspecto casca de laranja e que pode estar acompanhado ou não por depressões ou covas (aspecto captonè), tornando-se visível clinicamente, também denominado de aspecto casca de nozes.
Celulite é um termo popular, designações mais apropriadas são: (GUIRRO, 2002):

• Lipodistrofia localizada ginóide;
• Hidrolipodistrofia ginóide;
• Lipoesclerose nodular;
• Paniculopatia edemato-fibroesclerótica (PEFE);
• Fibro edema gelóide.

ETIOLOGIA

Pouco se sabe sobre a etiologia da celulite (DRAELOS, 2005). Estudos relatam a origem da celulite como uma série de complexos eventos que envolvem o tecido subcutâneo, derme e a microcirculação (RAWLINGS, 2006) como veremos a seguir.

As células de gordura, ou adipócitos, armazenam triglicerídeos que são acumulados através do excesso de ingestão de calorias. Os adipócitos são mantidos no tecido subcutâneo altamente vascularizado entre tecido conectivo, fibras elásticas, colágeno e proteoglicanos. A acumulação dos adipócitos pode criar depósitos regionais de gordura, que podem comprimir os tecidos adjacentes e levar a redução da microcirculação venosa e linfática (SMALLS, 2005), o que acarreta numa retenção líquida na derme e tecido subcutâneo.

A microcirculação é alterada heterogeneamente, sendo que em alguns locais a microcirculação está normal e em outras há redução de fluxo sanguíneo (SMALLS, 2005).

O progresso para o exacerbamento do quadro se tem quando há a continuação dos danos na rede capilar, pois este fator levará a uma diminuição do metabolismo na derme resultando em decréscimo na síntese de proteínas e na inabilidade de reparar danos teciduais.

Acúmulos de proteína são depositados em volta dos depósitos de gordura abaixo da pele, causando a aparência de “casca de laranja” ao ser realizado o “Teste da casca de laranja” (DRAELOS, 2005), o qual se verifica o estado acolchoado da pele (Fig. 5).

Um agravamento ainda maior do quadro se dá quando os nódulos compostos de gordura se tornam duros e mais envoltos por leitos de proteína (DRAELOS, 2005), o que pela palpação podem ser localizados facilmente.

EPIDEMIOLOGIA

A maior incidência da celulite se encontra na raça branca, quando comparada com a raça negra e amarela (GUIRRO, 2002), e segundo estudos realizados, foi constatado que 85% das mulheres após a idade de 20 anos apresentam algum grau de celulite (RAWLINGS, 2006).

As áreas mais acometidas pela celulite são glúteos, coxas região posterior superiormente, joelho região interna, abdome e braço. Embora ela possa surgir em toda região corporal, o couro cabeludo, nariz, palma das mãos e planta dos pés não são acometidos pela afecção (GUIRRO, 2002).

Sua intensidade é classificada em graus de acordo com a classificação de cada autor, a classificação de Ulrich, por exemplo, determina graus de I à III tendo como base o aspecto clínico da celulite e não o aspecto histopatológico, este último necessitaria da análise cutânea e do tecido adiposo através de exames complementares como ultrasonografia e ou ressonância magnética.

A mais de 100 anos a celulite é estudada na busca de respostas capazes de elucidar a transformação de um tecido são para um tecido acometido, configurando desde um aspecto desagradável aos olhos até problemas funcionais, podendo levar a quase total imobilidade dos membros inferiores, além das algias intensas e problemas emocionais (GUIRRO, 2002).

Estudada sob diversos aspectos, algumas teorias levantadas sobre o surgimento da afecção já foram descartadas, enquanto outras competem entre si.

A celulite é vista pela maioria dos pesquisadores como uma afecção, mas segundo DRAELOS, (2005), a manifestação do estado acolchoado da pele pode ser um estado natural do sexo feminino, e que se acentua conforme a idade avança, pois como já citado, 85% das mulheres pós puberdade apresenta algum grau de celulite, umas para mais e outras para menos.

Portanto, seria de fato esta, uma condição para tanto alarme por parte do público feminino? Ou um fato que deveria ser visto como natural no decorrer da vida, assim como o inevitável envelhecimento? Fica claro, ao menos, baseado nas literaturas encontradas (DRAELOS, 2005; RAWLINGS, 2006), que a celulite não tem cura, mas sim tratamento.

Hoje se sabe que a celulite deve ser evitada e combatida em todas as frentes possíveis: dieta hipocalórica, evitando a hipertrofia do tecido adiposo; exercício físico, para melhora da circulação sanguínea e linfática, evitando assim, o acúmulo de lipídios no interstício; ingestão de quantidade adequada de água para fluidificar a linfa, e se for necessário, um auxílio coadjuvante, como a técnica da endermologia, para celulite já instalada ou para evitá-la.

Sendo considerada uma afecção ou não, o fato é que a cada dia, a procura por tratamentos estéticos não invasivos e invasivos aumenta nos consultórios fisioterápicos e médicos respectivamente, despertando nestes profissionais um interesse ainda maior na busca de tratamentos mais eficazes.

FATORES QUE PROPICIAM A CELULITE

Sabe-se hoje que não é apenas uma única causa que gera a celulite, mas um conjunto de fatores que favorecem o quadro. Alguns desses fatores podem ser evitados e outros são intrínsecos ao indivíduo, e são classificados da seguinte forma segundo CAMPOS, (2006):

FATORES PREDISPONENTES

Hereditariedade

• Sexo: a partir do primeiro ano de vida, é observado que bebês do sexo feminino apresentam maior número de adipócitos que os do sexo masculino. Esse número se estende numa proporção de duas vezes mais adipócitos na mulher comparados aos dos homens. A mulher tem tendência natural de acúmulo graxo na área ginóide, ou seja na área glútea-femural, é a gordura sexo-específica, onde justamente a celulite tem sua maior concentração. Já no homem, a concentração de gordura tende a se localizar no abdomem. Essas diferenças de regiões de acúmulos de triglicerídeos, deve-se aos hormônios específicos de cada sexo, portanto, numa dieta hipercalórica, a gordura tende a se acumular mais prontamente na área ginóide na mulher e depois se dirige à demais regiões do corpo. Sabe-se, também, que os triglicerídeos localizados na área abdominal são mais lábeis à lipólise do que os localizados na área ginóide, tal fato demonstra a dificuldade para indivíduos do sexo feminino obterem o emagrecimento nesta área e a diminuição do quadro de celulite.

• Idade: com o avançar da idade há uma redução das necessidades energéticas, o metabolismo diminui, qualquer aumento ponderal, fatalmente terá depósito graxo nas áreas de preferência dos estrógenos, sobretudo nos braços, quadris, glúteos e coxas. Por esta razão, por fatores endógenos já citados e exógenos que seriam inadequação dietética, sedentarismo e maus hábitos o agravamento da obesidade e do estado da celulite têm considerável ascendência.

FATORES DETERMINANTES

• Tabagismo

• Sedentarismo

• Stress: o stress é um grande contribuidor para alterações hormonais, além de gerar contraturas musculares o que acarreta obstrução do fluxo sanguíneo e linfático e diminuição da oxigenação tecidual.

• Desequilíbrio Glandular e Metabólico: aumento de estrógeno, hiper e hipotireoidismo, diabetes e excesso de glicocorticóides estão envolvidos no surgimento da celulite.

• Alimentação: dietas hipercalórica e hiperlipídica contribuem para o aumento ponderal e conseqüente agravamento da celulite.

• Distúrbio Hepático: o fígado é importante formador de proteínas o que para a circulação é de suma importância, pois mantém a pressão osmótica.

FATORES CONDICIONANTES

• Causas Reflexas: são os distúrbios circulatórios propriamente ditos, os quais promovem alterações no tecido conjuntivo deixando-os mais hidrófilos, ou seja, ávidos por água.

• Causas Mecânicas: são as perturbações posturais, como exemplo a hiperlordose.

7.6 ANATOMIA DA CELULITE

Em artigos científicos (PIERARD et al., 2000; RAWLINGS, 2006), o termo “anatomia da celulite” vem sendo empregado para explicar o aspecto da mesma vista por exames complementares.

A base anatômica da celulite tem sido determinada através de estudos histológicos e mais recentemente por imagens por ressonância magnética (IRM) (QUERLEUX, 2004; SMALLS, 2005), que revelam a estrutura do tecido subcutâneo em ambos os sexos.

No homem, os septos fibrosos dividem as células de gordura em pequenas câmeras, e estão arranjados em forma de losangos (SMALLS, 2005).

Na mulher, essas câmeras de células adiposas formadas pelos septos de tecido conectivo, estão arranjadas em forma perpendicular aos tecidos adjacentes (Fig.3). Desta forma a derme e a fáscia muscular se encontram ancorados via tecido subcutâneo, o que se acredita ser a razão para o surgimento de covas ou depressões na pele, devido a resposta de forças de compressão na presença de celulite mais avançada (QUERLEUX, 2004).

 

Disposição dos septos fibrosos no homem e na mulher respectivamente.

Na mulher com celulite, a camada areolar da hipoderme avança para a derme criando herniações, o que é facilitado pelo arranjo estrutural dos septos fibrosos na mulher. Ao mesmo tempo, as duas camadas de tecido adiposo se encontram espessas, enquanto que o leito mais profundo do tecido subcutâneo (camada lamelar) se encontra muito mais espessa em comparação com o leito superficial (camada areolar), o que não ocorre na mulher sem indícios clínicos de celulite e em homens. Tais herniações são as características mais marcantes da disfunção (QUERLEUX., 2002).

Outra característica comum é a derme se apresentar espessa em mulheres com celulite, em comparação com mulheres sem evidência das mesmas.

Bibliografia

DRAELOS, Z. D.. The Disease of Cellulite; Journal of Cosmetic Dermatology, 4, 221-222, 2005.

GUIRRO, E.; GUIRRO, R.. Fisioterapia Dermato Funcional, 3ª edição, edit. Manole, 2002, p. 347-387.

PIERARD, G. E.; NIZET, J.L.; PIERARD-FRANCHIMONT, C.. Cellulite: From Standing Herniation to Hypodermal Strech Marks, Lippincott Williams & Wilkins, Inc., Vol 22 (1), February 2000, pp 34-37.

QUERLEUX, B; CORNILLON, C.; JOLIVET, O.; BITTOUN, J. Anatomy and physiology of subcutaneous adipose tissue by in vivo magnetic resonance imaging and spectroscopy: Relationships with sex and presence of cellulite, Skin Research an technology 8 : 118-124, 2002.

QUERLEUX, B.. Magnetic resonance imaging and spectroscopy of skin and subcutis, Journal of Cosmetic Dermatology, 3, 156-161, 2004

RAWLINGS, A.V.. Cellulite and its treatment; International Journal of Cosmetic Science, 28, 175-190, February 2006.

SMALLS, L. R. K, Development of Quantitative Models for the Investigation of Gynoid Lipodystrophy (Cellulite) [on line]. Cincinnati, 2005, dissertation (Doctor in Philosophy in Pharmaceutical Sciences of the College of Pharmacy).

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